A ciência por trás do alisamento capilar como os processos químicos atuam e quais cuidados são essenciais para preservar a integridade da fibra capilar e qualidade estrutural dos fios.
Como funcionam os processos de alisamento capilar na prática
O alisamento capilar é um procedimento químico ou térmico que tem como objetivo modificar temporária ou permanentemente a estrutura natural dos fios. Para compreender como esses processos atuam, é necessário entender que o cabelo é formado principalmente por queratina, uma proteína rica em ligações químicas responsáveis pela forma do fio. Essas ligações podem ser classificadas como fracas — como as pontes de hidrogênio — e fortes, conhecidas como pontes dissulfeto.
Os métodos de alisamento atuam justamente na quebra dessas ligações. Procedimentos temporários, como escova e chapinha, rompem apenas as ligações fracas, que se reconstituem assim que o cabelo entra em contato com a água. Já os processos químicos permanentes agem sobre as ligações fortes, promovendo uma alteração estrutural mais profunda e duradoura.
Entre os agentes químicos mais utilizados historicamente estão o formaldeído, o tioglicolato de amônia, a guanidina e o hidróxido de sódio. Cada substância possui um mecanismo de ação distinto e diferentes níveis de agressividade. Por isso, a escolha do método deve levar em consideração não apenas o resultado estético desejado, mas também a saúde dos fios e do couro cabeludo.
Além da substância utilizada, fatores como tempo de pausa, temperatura de ferramentas térmicas e frequência de aplicação influenciam diretamente nos resultados e nos riscos envolvidos. Quando realizados sem o devido cuidado técnico, os alisamentos podem comprometer a resistência do fio, tornando-o mais suscetível à quebra, ressecamento e perda de elasticidade.
O uso de formaldeídos nos alisamentos capilares
O formaldeído, popularmente conhecido como formol, tornou-se amplamente utilizado em procedimentos de alisamento devido ao seu baixo custo e ao resultado imediato de fios extremamente lisos e brilhantes. Na prática, o formol é uma solução de formaldeído a 37%, cuja comercialização em farmácias é proibida no Brasil, sendo seu uso regulamentado de forma restrita na indústria cosmética, devido aos riscos à saúde.
No alisamento capilar, essa substância costuma ser misturada de forma empírica à queratina líquida — composta por aminoácidos carregados positivamente — e a cremes condicionadores. Após a aplicação nos fios, o cabelo é submetido ao calor intenso do secador e da prancha (chapinha). Esse calor promove a ligação do formaldeído às proteínas da cutícula e aos aminoácidos da queratina, formando um filme rígido ao longo do fio.
O calor ativa o formaldeído, que se liga às proteínas da cutícula capilar e aos aminoácidos da queratina hidrolisada, formando um filme rígido ao longo do fio.
Esse revestimento cria um efeito de impermeabilização, mantendo o cabelo artificialmente liso. No entanto, ao invés de tratar a fibra capilar, o formaldeído apenas endurece o fio, comprometendo sua flexibilidade natural. Como consequência, o cabelo torna-se mais frágil e propenso à fratura durante atividades cotidianas, como pentear ou prender.
Os riscos associados ao uso de formaldeídos
A aplicação indevida do formaldeído representa riscos significativos tanto para quem realiza o procedimento quanto para quem o recebe. Esses riscos aumentam proporcionalmente à concentração utilizada e à frequência de exposição, ocorrendo principalmente por meio da inalação dos vapores liberados durante o aquecimento do produto e pelo contato direto com a pele.
A inalação do formaldeído pode provocar irritações nos olhos, nariz, mucosas e trato respiratório superior. Em exposições mais intensas, há relatos de bronquite, pneumonia e laringite. Profissionais que trabalham frequentemente com esse tipo de produto estão ainda mais vulneráveis, especialmente em ambientes com ventilação inadequada.
Impactos do formaldeído a longo prazo
A exposição prolongada ao formaldeído pode causar dermatites, reações alérgicas e ressecamento severo da pele, levando a rachaduras e hipersensibilidade. Esses efeitos reforçam a importância de que procedimentos químicos sejam realizados exclusivamente por profissionais capacitados, que utilizem produtos regulamentados e técnicas seguras, priorizando sempre a saúde capilar e do organismo como um todo.
“A exposição ao formaldeído está associada a efeitos irritantes e potencialmente carcinogênicos, especialmente quando inalado de forma repetida.”
INCA – Instituto Nacional de Câncer. Ministério da Saúde, Brasil
Alisamento com tioglicolato: técnica, efeitos e duração
O tioglicolato de amônia é um dos agentes químicos mais utilizados em alisamentos definitivos. Seu mecanismo de ação baseia-se na quebra das pontes dissulfeto da queratina, permitindo que o fio seja moldado em um novo formato. Para intensificar o efeito liso, o produto é frequentemente associado ao uso da prancha quente, aplicada em mechas muito finas.
Após o processo térmico, os cabelos são enxaguados e submetidos a um agente oxidante, geralmente contendo peróxido de hidrogênio. Esse passo é fundamental para neutralizar o tioglicolato e interromper a ação química, fixando permanentemente o novo formato do fio. Dependendo da espessura do cabelo e da técnica utilizada, todo o procedimento pode durar até sete horas.
Diferença entre alisamento e relaxamento
O chamado relaxamento capilar também utiliza o tioglicolato, porém sem o uso da prancha. Nesse caso, o efeito liso é mais suave e o processo ocorre de forma mais rápida. Esse método é indicado para quem deseja apenas reduzir o volume e definir os fios, sem alcançar um liso extremamente alinhado.
Cuidados com cabelos quimicamente tratados
Em cabelos que já passaram por outros processos químicos, é indispensável realizar o teste de mecha antes do alisamento. Esse procedimento avalia a resistência dos fios e evita danos severos, como quebra ou emborrachamento. Após o alisamento, a aplicação de coloração permanente ou tonalizante deve respeitar um intervalo mínimo de 15 dias, pois cabelos alisados tornam-se mais sensíveis, especialmente a processos de clareamento.
Considerações importantes sobre os alisantes químicos
Os alisantes à base de guanidina ou hidróxido de sódio promovem uma alteração irreversível na estrutura do fio. Por esse motivo, cabelos que já passaram por esse tipo de alisamento não devem ser submetidos novamente ao mesmo processo, pois o risco de quebra é elevado. Já no caso do tioglicolato, recomenda-se que apenas o crescimento novo seja alisado.
Quando concentrações mais baixas de tioglicolato são utilizadas, pode ser necessária uma reaplicação cuidadosa, sempre precedida de teste de mecha. Um ponto fundamental é que o cabelo só pode ser alisado novamente com a mesma substância utilizada inicialmente, evitando incompatibilidades químicas graves. Além disso, o alisamento deve ser feito de duas a quatro semanas antes da coloração.
Escova progressiva e escova japonesa
A escova progressiva sem formol consiste na aplicação periódica de tioglicolato, geralmente a cada quatro meses, promovendo um efeito liso gradual. Já a chamada escova japonesa utiliza altas concentrações do produto para alcançar um alisamento intenso em apenas uma sessão.

Proteção do couro cabeludo
Independentemente do método escolhido, os alisantes não devem ser aplicados diretamente no couro cabeludo. Produtos mais potentes exigem proteção prévia da pele com óleos ou vaselina, minimizando o risco de irritações e queimaduras químicas.

Tipos de alisamento capilar: temporários e permanentes
Existem diversas técnicas de alisamento, cada uma com características específicas. Os alisamentos temporários rompem apenas as pontes de hidrogênio, durando até a próxima lavagem. Eles exigem que o cabelo esteja molhado para permitir a hidrólise da queratina, possibilitando a abertura temporária da estrutura helicoidal do fio.
A rápida desidratação com o secador mantém a forma lisa da haste, enquanto a prancha quente molda as escamas da cutícula, achatando-as paralelamente ao fio. Esse processo confere ao cabelo um aspecto liso e brilhante, devido à maior reflexão da luz incidente.
Já os alisamentos permanentes envolvem a quebra das pontes dissulfeto, alterando de forma definitiva a estrutura da queratina. Esses métodos exigem maior controle técnico e cuidados contínuos para preservar a integridade do fio.
Técnicas de alisamento menos agressivas
É importante compreender que nenhum alisamento é totalmente isento de danos, pois qualquer alteração da forma do cabelo exige modificações em sua estrutura interna. No entanto, algumas técnicas são consideradas menos agressivas quando realizadas corretamente.
Escova de queratina e escova orgânica
A escova de queratina utiliza essa proteína para fortalecer e reparar os fios enquanto promove alinhamento e redução do frizz. Já a escova orgânica evita substâncias agressivas, como o formol, e utiliza ingredientes botânicos e óleos vegetais, resultando em um liso mais natural e fios nutridos.
Selagem térmica e aminoácidos
A selagem térmica utiliza polímeros para selar as cutículas sem alterar significativamente a estrutura interna do fio. O alisamento com aminoácidos, por sua vez, além de alisar, reconstrói e fortalece a fibra capilar, proporcionando um efeito mais saudável.
Como escolher o melhor tipo de alisamento para o seu cabelo
A escolha do alisamento ideal depende do tipo de cabelo, da espessura do fio, do histórico químico e do estilo de vida. Cabelos finos e fragilizados exigem técnicas mais suaves, enquanto cabelos grossos e resistentes podem tolerar processos mais intensos.
O histórico de químicas anteriores deve ser cuidadosamente avaliado, pois incompatibilidades podem causar danos severos. Além disso, considerar o tempo disponível para manutenção e a frequência de retoques ajuda a definir o método mais adequado. A avaliação de um profissional qualificado é indispensável para garantir segurança e bons resultados.

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Cuidados essenciais com o cabelo alisado
Após o alisamento, é fundamental adotar uma rotina específica de cuidados. O cronograma capilar, intercalando hidratação, nutrição e reconstrução, ajuda a repor nutrientes e fortalecer os fios.
O uso de protetor térmico antes de ferramentas de calor é indispensável.
Proteção e manutenção dos fios
A proteção solar previne ressecamento e desbotamento, enquanto cortes regulares ajudam a manter o cabelo saudável e livre de pontas duplas
Cuidados com o cabelo alisado no verão
O verão exige atenção redobrada devido à exposição ao sol, mar e piscina. Produtos com proteção UV, uso de chapéus e enxágue imediato após mergulhos ajudam a preservar o alisamento.
Leave-ins hidratantes e máscaras semanais com ingredientes como aloe vera e óleos naturais são aliados importantes.
Frequência ideal para retocar o alisamento
A frequência de retoque varia conforme o tipo de alisamento. Alisamentos definitivos exigem retoque a cada três ou quatro meses, concentrando-se apenas na raiz. Escovas progressivas e selagens térmicas demandam retoques a cada dois ou três meses.
O uso de produtos adequados e a frequência de lavagens influenciam diretamente na durabilidade do efeito liso. Priorizar a saúde dos fios deve ser sempre a principal consideração.
Conclusão
O alisamento capilar é um procedimento que envolve muito mais do que estética. Ele altera diretamente a estrutura dos fios, podendo trazer benefícios visuais, mas também riscos significativos quando realizado de forma inadequada. Substâncias como o formaldeído oferecem resultados imediatos, porém apresentam sérios perigos à saúde, enquanto métodos regulamentados exigem técnica, tempo e cuidados contínuos.
Entender de que é feito o alisamento, como cada agente químico atua e quais são as limitações de cada método é essencial para fazer escolhas conscientes. Além disso, respeitar intervalos entre procedimentos, realizar testes de mecha e contar com profissionais qualificados são fatores determinantes para preservar a saúde capilar.
Mais do que buscar um cabelo liso, é fundamental priorizar a integridade dos fios e o bem-estar geral. Um alisamento bem planejado, aliado a uma rotina adequada de cuidados, pode proporcionar resultados satisfatórios sem comprometer a estrutura capilar a longo prazo.
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